Outra coisa que não parece
ser entendida pelos outros é quando me chamam de intelectual e eu digo
que não sou. De novo, não se trata de modéstia e sim de uma realidade
que nem de longe me fere. Ser intelectual é usar sobretudo a
inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto. Ser
intelectual é também ter cultura, e eu sou tão má leitora que, agora já
sem pudor, digo que não tenho mesmo cultura. Nem sequer li as obras
importantes da humanidade. Além do que leio pouco: só li muito, e li
avidamente o que me caísse nas mãos, entre os treze e os quinze anos de
idade. Depois passei a ler esporadicamente, sem ter a orientação de
ninguém. Isto sem confessar que – dessa vez digo-o com alguma vergonha –
durante anos eu só lia romance policial. Hoje em dia, apesar de ter
muitas vezes preguiça de escrever, chego de vez em quando a ter mais
preguiça de ler do que de escrever.
Literata também não sou porque
não tornei o fato de escrever livros “uma profissão”, nem uma
“carreira”. Escrevi-os só quando espontaneamente me vieram, e só quando
eu realmente quis. Sou uma amadora?
O que sou então? Sou uma
pessoa que tem um coração que por vezes percebe, sou uma pessoa que
pretendeu pôr em palavras um mundo ininteligível e um mundo impalpável.
Sobretudo uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando
consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana ou animal.
(2 de novembro de 1968).
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